7 de jan. de 2008

JUSTIÇA #07

Com esta sétima edição, Justiça inicia seu caminho derradeiro. O final desta belíssima saga se aproxima, porém, os problemas enfrentados pelos membros da Liga da Justiça estão longe de terminar.Como nas edições anteriores, o texto de Krueger consegue transmitir fluidez à trama que, muito embora tenha uma quantidade enorme de personagens, em momento algum se mostra confusa ou “atropelada”. Assim, os muitos fatos narrados na HQ são explicados da forma devida, em que pesem as poucas páginas separadas para cada um deles. Isso demonstra a habilidade não só do roteirista, mas também dos artistas (dos quais falarei mais adiante) na construção de um número reduzido de quadros, mas que transmitem um grande significado para o leitor.Outro mérito de Krueger é desenvolver situações que representem riscos reais à vida dos heróis. Todos os ataques perpetrados pela Legião do Mal causam ao leitor a sensação de que pode estar acompanhando a última aventura dos heróis. São situações críticas e criativas, que só a mente de um fanático pela Liga poderia ter desenvolvido.Exemplo claro é a atuação do Superman e do Capitão Marvel no salvamento do Flash. Após ouvir o ousado (e provavelmente fatal) plano do Capitão, o Homem de Aço faz às vezes do leitor ao propor um plano muito mais simples (e aparentemente lógico) para socorrer Flash: “(...) você tem a velocidade de Mercúrio. (...) Talvez você consiga detê-lo sem fazer o que está planejando. Apenas agarre-o”. Sugestão rechaçada de imediato por Marvel: “ele está vibrando tão rápido que não pode ser agarrado...”.Assim, Krueger não só elaborou o plano para salvar o Flash como fez questão de demonstrar que aquela era a única saída viável, evitando que alguns leitores apontassem supostos “furos” na história ou que alegassem ser a idéia heróica do Capitão Marvel pra lá de absurda.Em meio a tantos ataques aos membros da Liga da Justiça, na minha opinião, um demonstra requintes especialmente cruéis: o realizado contra o Lanterna Verde. Na edição passada, Hal Jordan começava a se perguntar por quanto tempo agüentaria sobreviver dentro de seu anel, vivendo em um mundo artificial, sem espontaneidade e sem o caos natural (e essencial) da vida humana.Passado algum tempo, o Lanterna nota ser impossível continuar vivendo nesta realidade artificial e decide converter-se novamente à forma humana, para aguardar a morte no espaço. Idéia é refutada de imediato pelo anel, que tem como objetivo primário salvaguardar a vida de seu portador. Desta forma, ele impede que Hal volte a ser humano para morrer isolado no espaço, condenando-o a viver eternamente sozinho dentro do anel que sempre o protegeu.Tentei-me colocar no lugar do Lanterna Verde e não consegui. Imaginar a existência eterna completamente só é impensável. Notar as horas transformarem-se em dias, semanas, meses, anos até que a noção de tempo deixe de existir na mente de Hal é cruel e desesperador. A sociabilidade é da natureza do ser humano e impedi-lo de conviver, tocar ou mesmo sentir a presença de outra pessoa é um destino muitas vezes pior que a morte.Além do Flash e do Lanterna Verde, outros heróis merecem destaque nesta edição: o Gavião Negro e a Mulher-Gavião digladiam com o Homem dos Brinquedos e sua horda de Braniacs, e o Aquaman, que finalmente é encontrado, pelo menos parte dele...Do lado da Legião do Mal, Luthor, Braniac e Grodd, os três pilares do plano para destruir a Liga, iniciam a segunda fase de seu ataque. Concentrando suas ações para todos os entes queridos (heróis ou não) dos membros da Liga da Justiça. Mas o dado interessante da participação destes três nesta edição é a clara insatisfação de Luthor com as atitudes de Braniac, que participa com aquele no ataque à Liga, mas possui desejos e objetivos próprios.Neste ponto, texto e arte completam-se de uma forma única. Em apenas um quadro Ross demonstra toda a técnica realista e repleta de detalhes que o consagrou. Note a reação de Luthor e Grodd ao ouvir os comentários maliciosos de Braniac sobre a incompetência daquele em destruir a Liga da Justiça; enquanto Luthor demonstra uma insatisfação velada (contraindo levemente os músculos da face em direção aos olhos, sem, contudo, dirigir o olhar a Braniac), Grodd lança um olhar cínico para Luthor, esboçando um leve sorriso de deboche para aquele que até pouco tempo era o comandante das ações contra os heróis.São esses pequenos detalhes contidos nas expressões das personagens, as quais a absoluta maioria dos artistas atuais não teria a capacidade de reproduzir, que enriquecem sobremaneira o indivíduo caracterizado, conferindo-lhe profundidade única. A perfeição da pintura realizada por Ross e Braithwaite tem reflexos também no texto de Krueger, pois este não necessita explicar o sentimento de revolta de Luthor, o que enfraqueceria o texto, tornando-o verborrágico.Outra cena marcante na parte gráfica é a página dupla onde o Caçador de Marte e Zatanna adentram em uma espécie de laboratório (que mais parece um frigorífico) na procura por Aquaman. Novamente os detalhes impressionam: quadros com a câmera posta em um nível inferior para conferir a sensação de claustrofobia, o próprio laboratório reproduzido com aspecto asqueroso, sujo, resultando em um ambiente assustador, que poderia muito bem ter sido extraído de um filme de terror e os espécimes utilizados por Braniac em suas experiências insanas (observem o pequeno macaco de pêlos claros com uma incisão no lado direito de seu crânio, sua expressão de terror é indescritível).Por fim, não poderia deixar de registrar a capa desta sétima edição. Mencionei no review anterior que a capa daquela HQ era a melhor até o momento. Bem, até o momento em que esta foi publicada. A luta entre o Gavião Negro, a Mulher-Gavião e o exército do Homem dos Brinquedos é incrível! Detalhe para o braço do Homem dos Brinquedos estendido como se suplicasse piedade ao Gavião Negro, enquanto este prepara o golpe fatal com seu machado e o braço decepado de um desafortunado clone do Braniac. Sem comentários!Contando com vários interessantes ganchos para as próximas edições, o principal deles envolvendo o rapto do filho do Aquaman, Justiça entra em sua reta final com todo o gás, prometendo um desfecho eletrizante para esta série já clássica da Liga da Justiça.